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Design de interiores para apartamentos antigos em Lisboa: o que muda e o que fica
03 Junho, 2026

Design de interiores para apartamentos antigos em Lisboa: o que muda e o que fica

Lisboa tem um parque habitacional antigo e com carácter. Os edifícios construídos entre o final do século XIX e meados do século XX — os chamados prédios de rendimento, os imóveis pombalinos tardios, as construções dos anos 1920 e 1930 — têm características que os apartamentos contemporâneos raramente replicam: pés-direitos de três metros ou mais, soalhos de madeira maciça, tetos com molduras e medalhões trabalhados, paredes de espessura generosa, caixilharias de madeira com personalidade.

São também espaços que envelheceram. As instalações elétricas e de água datam de décadas. A distribuição das divisões obedece a uma lógica que já não corresponde à forma como se vive hoje. A eficiência energética, não existia enquanto critério de projeto.

Projetar nestes apartamentos exige uma abordagem própria que começa por perceber o que se está a trabalhar.

O que define um apartamento antigo em Lisboa

Os apartamentos mais antigos de Lisboa, especialmente nos bairros de Arroios, Avenidas Novas, Campo de Ourique, Príncipe Real, Estrela e Belém, têm uma organização espacial que reflete os hábitos da época em que foram construídos: corredores compridos, quartos separados da zona social por distâncias consideráveis, cozinhas pequenas e fechadas, casas de banho exíguas por comparação com o resto do apartamento.

A estrutura pode ser de alvenaria de pedra, tijolo ou, nos casos mais antigos, madeira — o que condiciona o que é possível alterar e o que não é. Há paredes que não se tocam. Há pavimentos que escondem sistemas de instalação que têm de ser repensados de raiz. E há elementos arquitetónicos que, sendo parte da identidade do espaço, valem a pena preservar.

É neste contexto que começa o projeto de arquitetura e design de interiores.

O que muda: instalações, layout, eficiência

Um projeto de arquitetura e design de interiores em apartamento antigo implica quase sempre intervir nas instalações. Canalizações, sistemas elétricos, aquecimento — são frequentemente substituídos na totalidade, não por opção estética, mas por necessidade e funcional. É também a oportunidade para pensar o espaço do ponto de vista contemporâneo: localização de tomadas, iluminação pensada por zonas, sistemas de estores ou climatização integrados de forma discreta.

O layout é a segunda grande intervenção. Os apartamentos antigos foram projetados para uma forma de viver que não é a de hoje: cozinhas isoladas em vez de abertas para a sala, quartos de serviço que perderam a função original, distribuições que criam corredores compridos e divisões de transição. Quando a estrutura permite — e nem sempre permite — reconstrói-se a lógica do espaço para que responda às rotinas de quem o vai habitar.

A eficiência energética tende a melhorar por consequência das intervenções, mas raramente é o critério principal num apartamento de herança. O que se procura é que o espaço funcione bem — que a luz entre, que a ventilação seja adequada, que os materiais escolhidos suportem o uso real.

O que fica: pé-direito, soalhos, tetos

Esta é, muitas vezes, a decisão mais importante de qualquer projeto num apartamento antigo. O que se preserva.

O pé-direito generoso é, nos apartamentos que ainda o têm intacto, um elemento estruturante do espaço. Condiciona a escala das peças de mobiliário, a forma como a luz se distribui, a sensação de amplitude. Não se toca.

Os soalhos de madeira maciça — pinho, carvalho, castanho — são quase sempre recuperáveis, mesmo quando parecem irrecuperáveis. Lixagem, tratamento e acabamento devolvem a um soalho centenário uma qualidade que a maioria dos materiais novos não consegue replicar. A decisão de substituir deve ser tomada com informação: há soalhos que não sobrevivem à intervenção, mas são a exceção.

Os tetos trabalhados — medalhões, molduras em estuque, frisos — são elementos que definem o carácter próprio de um apartamento antigo. Restaurá-los é trabalhoso e tem custo; mas o resultado de um teto recuperado num espaço projetado de raiz é consistentemente superior ao de um teto liso pintado por cima. O contraste entre um elemento histórico preservado e uma intervenção contemporânea, quando bem gerido, enriquece o espaço em vez de o contradizer.

A questão do licenciamento em Lisboa

Projetos em edifícios classificados ou em zonas históricas de Lisboa estão sujeitos a condicionantes de licenciamento que não existem noutros contextos. A Câmara Municipal de Lisboa, em articulação com a DGPC quando aplicável, tem regras sobre o que pode ser alterado na fachada, na estrutura e nos elementos patrimoniais de edifícios com interesse histórico ou arquitetónico.

O processo de aprovação varia consoante a tipologia do edifício e o tipo de intervenção — e pode demorar. Isso não é um obstáculo que se contorna; é uma variável que se integra no planeamento desde o início. Projetos em edifícios condicionados requerem mais tempo e um conhecimento específico do contexto regulatório lisboeta.

Conhecer este contexto regulatório — e saber integrá-lo no planeamento desde o início — é parte do trabalho. No Atelier Spacemakers, a dimensão de arquitetura e a de design de interiores caminham juntas, o que torna este processo mais fluido para quem está do outro lado.

Materiais que funcionam em espaços históricos

Há materiais que dialogam bem com apartamentos antigos e materiais que criam dissonância. A escolha não é uma questão de estilo — é de proporção, escala e honestidade.

A pedra natural, em particular os mármores e calcários nacionais, tem uma relação de cumplicidade com a arquitetura lisboeta que os materiais sintéticos raramente conseguem. A madeira em soalhos, em caixilharia, em mobiliário à medida mantém a continuidade material de espaços que foram construídos com ela.

Intervenções contemporâneas em ferro, vidro ou betão são possíveis e por vezes muito bem conseguidas, mas exigem intenção clara. Quando o contraste é deliberado e fundamentado, funciona. Quando é acidental, rompe a coerência.

Como abordamos estes projetos

Isso implica perceber, em conjunto com o cliente, o que é inegociável. Mas implica também, antes de qualquer decisão de projeto, perceber o que o próprio edifício permite.

Em apartamentos antigos, qualquer alteração à distribuição existente começa por uma análise estrutural rigorosa. O Atelier Spacemakers trabalha com engenheiros parceiros especializados que avaliam a estrutura antes de qualquer intervenção significativa ; paredes a remover, vãos a abrir, pavimentos a substituir. Não é um passo opcional. É a condição para que as decisões de projeto sejam seguras, e para que o cliente saiba, desde o início, o que é realmente possível fazer naquele espaço.

É esse trabalho conjunto de  arquitetura, design e engenharia a falar desde o primeiro momento que evita surpresas em obra e garante que o projeto que se aprova é o projeto que se executa.

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