Projetar Emoções (Entrevista – Jornal Sol)

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Arquitecta Decoradora

Em criança passava os dias a construir casas com blocos Lego, desenhava em tudo o que fosse papel e dizia que ia ser arquitecta. Agora é um dos rostos conhecidos do programa Querido Mudei a Casa e exerce a ‘paixão’ de criar e transformar espaços. Uma profissão com mais ‘psicologia’ do que se imagina.

Quando tem um desafio a frente, Ana Proença não sossega enquanto não sente um ‘clique’ que a deixa com a certeza de que o caminho é por ali. “Muitas vezes é no duche da manhã que me ocorrem as melhores ideias, resolvo lá a minha agenda,” conta. Por coincidência. também Célia Mestre, sócia da empresa Spacemakers – que as duas fundaram em 2005 -, usa a mesma estratégia para desligar a mente e soltar a criatividade. «Este é um trabalho em que lidamos com muita pressão, as pessoas querem tudo na hora e não têm a noção do que está por detrás da execução de um projecto».

Ana Proenca, decoradora e arquitecta

Passam horas e horas de loja em loja, de volta de catálogos e à procura dos materiais que precisam, desde uma simples torneira, a tecidos, mobiliário ou soluções de iluminação. No mesmo instante, tanto lidam com lojistas, como têm de tratar do licenciamento de uma obra, pedir orçamentos, tirar dúvidas com o canalizador, falar com o estofador ou com o aplicador de papel de parede.

Anda a suspirar ‘Se pudesse, mudava a casa’? E já pensou no que gostava de alterar? Ao atelié chegam pedidos de remodelação, para renovar uma divisão, casas ou prédios inteiros, escritórios, consultórios e espaços comerciais. «Ouvimos sempre a ideia do cliente, o que mais valoriza, os seus gostos e hábitos de vida, porque é ele quem vai estar lá todos os dias. Terá que se identificar com o projecto, se não, perde o sentido». por isso que o contacto inicial passa sempre por escutar, numa tentativa de «tirar o perfil» e descodificar o que o cliente pretende, a par do registo fotográfico e do levantamento das medidas e características do espaço. «Somos um bocadinho psicólogas, criamos uma empatia e, às vezes, as pessoas acabam por desabafar, confidenciam.

Ana Proenca, decoradora e arquitecta.

Se na televisão, o efeito surpresa é um dos ex-libris do programa Querido Mudei a Casa, no trabalho do ateliê, Ana Proença não deixa de mostrar e discutir todos os projectos com os clientes, havendo, por vezes, necessidade de reajustes, com o cuidado de não deixar cair «o conceito> subjacente. «Quando sentimos resistência, lá temos de fazer valer os nossos argumentos, de mostrar que existem outras soluções para além daquelas que a pessoa conhece, justifica a arquitecta, que prefere arriscar a ter um resultado sem chama. «Em qualquer projecto há muito cunho pessoal, está lá uma parte de nós».

Não é realístico pensar que fica tudo pronto em 48 horas, como no programa televisivo. Até mesmo aí, há um trabalho prévio demorado, que não transparece para o público. Consoante o volume de trabalho, precisam de três a quatro semanas para renovar uma divisão e, pelo menos, o dobro do tempo para mudar uma moradia, desde a concepção à execução do projecto. Podia ser mais rápido se não fosse necessário encomendar grande parte dos materiais, até porque alguns vêm de fora, como é o caso de tecidos e papéis de parede. A obra em si e a montagem demoram pouco: «Trabalhamos com equipas que são rápidas e eficientes, que tratam de tudo. É um descanso para o cliente, que não tem que se preocupar. Nós é que controlamos o processo».

Ana Proenca, decoradora e arquitecta.

O stresse de ter obras em casa e a indecisão quanto à decoração, levam a que procurem os seus serviços. «As vezes pensam que somos estrelas e que não vale a pena pedir uma opinião. Mas não é nada disso, há sempre algo que se pode fazer. Pode compensar más recorrer a um profissional do que desperdiçar dinheiro em soluções que não funcionam», afirmam as arquitectas. É muito fácil cair em erros de decoração quando não se domina a tarefa. Os portugueses têm tendência para comprar objectos fora de escala que na loja parecem pequenos, mas que em casa se tornam monstros. Para além de «guardarem muita tralha e misturarem peças que não têm nada a ver umas com as outras»

O mote para a decoração pode ser um padrão ou uma cor, que agarra todo o projecto, ou outro motivo sugerido pelo cliente ou pelo ateliê. Se o objectivo for tornar o espaço mais funcional, será esse o fio condutor. «Já aconteceu desenharmos peças de mobiliário e de iluminação. Tentámos encontrar a melhor resposta, personalizando o espaço, explicam. Uma boa distribuição da iluminação ajuda a criar ambientes distintos e é importante não «abusar da luz, porque as vezes entramos em salas que parecem frigoríficos». O mesmo cuidado é necessário com o uso da cor que tem de ir muito bem estudada e controlada. «Cores escuras em espaços pequenos tornam-nos ainda mais pequenos.

Rubrica Profissoes, Ana Proenca, decoradora e arquitecta.

Alguns padrões também não resultam, porque provocam ilusão óptica», adverte Ana Proença. Alguns projectos destacam-se precisamente pela ausência de cor. «Há quem nos peça uma decoração o mais clean possível, em branco, livre de informação, para descomprimir». Mas para outras pessoas, isso estaria fora de questão, porque lhes faz lembrar ambientes hospitalares. Cada projecto é pensado para quem vai habitar o espaço. E procura-se o equilíbrio entre peças intemporais e apontamentos das tendências actuais para que, em qualquer altura, seja fácil um refresh», mudando pormenores.

O que Ana e Célia mais gostam é de fazer desde a raiz, de traçar o projecto de arquitectura «puro e duro» e acompanhar todo o processo, desde o licenciamento, a empreitada, o mobiliário e a decoração, entregando pronto a habitar. «É só entrar e usufruir, sem dores de cabeça», dizem. Os prazos e os orçamentos apertados são as maiores dificuldades e, às vezes, «o projecto ideal transforma-se em projecto possível».

Ana Proenca, decoradora e arquitecta.

A colaboração com o Querido Mudei a Casa trouxe mais visibilidade, mas também mais responsabilidade ao trabalho de Ana Proença. «Naquele instante em que tiram a venda dos olhos, sentimos o impacto que causamos na vida daquelas pessoas… São dois dias intensos de filmagens, quase sem ir à cama, em que o cansaço dá lugar a sessões de disparates e «ataques de riso sucessivos». E elege como o desafio mais difícil e gratificante o programa em que mudou um T0, transformando-o num T2, em espaços distintos para a mãe e para a filha, que viviam sem conforto (assista a este programa aqui). Ana Proença nunca se imaginou a fazer outra coisa. Desde pequenina que dizia que ia ser arquitecta. O pai tinha o hábito de comprar muitos livros e assim que chegava a casa com mais um volume, Ana corria de lápis na mão para desenhar na primeira página em branco. Ainda hoje quando abre os livros do pai, encontra os desenhos de infância. Depois do curso de arquitectura passou por ateliés e empresas e decidiu formar a sua própria marca em parceria com Célia Mestre. «Nesta profissão não se pode estar sem entrega, sem paixão»

Fonte: Jornal SOL (Abril 2011)
Texto: Gabriela Cerqueira
Imagens: Sara Matos

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